sábado, 31 de março de 2018

Roberta Sá, António Zambujo e Yamandú Costa | "Eu Já Não Sei"

És a Tela

És a cor da ponta de um pincel.
És as formas de sentir e amar.
Não paro de pensar no que poderás estar a fazer neste momento.
Sei ainda de cor a altura da tua janela, o comprimento do postigo.
Ainda sinto a tua pele arrepiada na ponta dos meus dedos.
Que a cada curva e lugar certo te fazem sorrir durante esse teu olhar profundo e terno.
És ainda as mãos esguias e geladas que completavam o meu rosto.
As mãos que são ainda sinónimo de que o meu sol ainda não está posto.

AC

domingo, 18 de março de 2018

Versos

Sinto o peso das palavras que escrevi e não tive vontade de as falar, são sinceras meu amor e são para ti. 
Por vezes fogem de amar, nestas noites frias ao cantar. 
Solto as cordas e o bordão, com mais força as toco para que as sintas de bem longe no coração.
Trocando o teu amor por algo menor, àquilo que a distancia diz à lua sobre o nosso bailar. 

Cada nota que te canto é tão honesta quanto os gestos do teu puro amor. 
O sorriso e a alma desse teu abraço que acalma este intruso do teu corpo que fica sem pudor. 
Do outro lado do rio adoramos a extensa marginal, beijada pelo casario que um dia será o nosso punhal. 
São versos soltos que escrevo pela confusão que nos diz, que o nosso amor ainda é um pequeno petiz.

 AC

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Início

Fui criado no monte, desde cedo aprendi a andar no meio do tojo. Aprendi a caçar, tirar vida com as próprias mãos, a criar para matar a seguir. Diziam que me faria um homem. Aprendi a pescar de cana e pau na mão, até mesmo a arrancar as guelras com as pontas dos dedos. Aprendi a sarar as feridas no monte com banhos de folhas de eucalipto e a chorar para dentro a dor de cada picada. Estes extremos de aprendizagem, desde a liberdade e alegria dos vales sem fim até à dor da finitude de todo esse viver. Fez de mim capaz de querer mais e melhor, da alegria à tristeza, da ignorância à sabedoria, do mar às montanhas do pólo sul ao pólo norte. Fez-me querer saber o mundo, do início ao sei fim.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Perdão

É agora ao ouvir o sofrimento de alguém próximo que finalmente, ouço o teu sofrimento. Vem tarde. O ouvir é apenas o primeiro passo. O passo que se dá para dentro de um poço à qual eu tirei a luz. Pouso os pés num fundo seco e vazio, tiro a venda e apenas vejo pedras negras carregadas de lágrimas, musgo de cor verde morto, olho para cima e não vejo luz. Para ver isto tudo é preciso luz, talvez seja a luz da esperança de um dia te encontrar e pedir desculpa por ter retirado a tua luz, o teu brilho de sol quente e radiante.
Procuro encontrar uma explicação plausível, várias até, para o que aconteceu e só encontro balelas. Tudo bem que muitas das minhas vivências me levaram a ser inseguro e errante na minha maneira de amar. Até mesmo aquela vontade louca de viver, que tu elogiavas e adoravas, me levou a querer explorar mais. A vida, os seres e os seres a viver a vida. Não percebendo que a única coisa que valia a pena, eras tu e o nosso amor. Mas isso não é desculpa. É apenas uma aprendizagem para que num dia em que eu volte a conseguir amar, não volte a magoar.

AC

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

(...)

Onde estás tu alma invencível 
Onde estás tu vontade de agarrar as pedras da calçada 
Qual vontade de viver indomável 
Qual sentido de perseverança 

Com toda esta vontade de ser e não ser 
De querer seguir com escudo ao peito e espada em punho 
Esta armadura falsa que carrego 
Foi tão leve no início e tão pesada agora 

Crias ansiedade nos dias que correm 
Quando no passado eras evitada, como falso presságio de futuro 
Esses tentáculos que agarravam tudo 
Com apenas um objectivo, 
A realidade que não tardava em chegar

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

(...)

Sim tu! Filha de mãe e de pai! Apadrinhada de bruxa. Passados meses persegues aqueles que te querem no fundo do esquecimento. Apareces em sonhos e dás o ar da tua graça, a luz, a alegria, a angústia, a confusão. E agora? queres o quê? Que me ponha de joelhos e chore pela merda que fiz? Sim, mil desculpas posso dizer e nada te vão valer. Que te deu para seguires um descompensado, lunático, aluado do mundo. Era isso que te fascinava ou o pouco de humano que ele tinha? Tu que eras o sol para as minhas mais profundas trevas, tu que eras o nascer do meu sorriso, tu que eras o por do sol da minha calma. O que te faltava para satisfazer a imaturidade que havia em mim?

AC

sábado, 4 de março de 2017

Refúgio

São erros constantes na vida que nos remetem a um pensamento inútil de não vivência. São os mesmo erros que nos fazem crescer e regredir. São erros que nos fazem pensar e chegar às conclusões mais certas. São erros os que nos levam a pensamentos erráticos e sem sentido. É por vezes a distância que nos faz viver a falta de alguém a qual não queremos largar por nada. A distância que nos atrai, aumenta a fome do querer, a saudade de viver. Viver junto de quem um dia queremos tão perto, como uma simbiose perfeita entre dois corpos que se tornam um só; no outro dia não conseguimos ver ninguém à frente e tudo nos parece errado. Não é fácil lidar com o sentimento de amar, e enganem-se aqueles que julgam o amar igual a cliché. Um dia és a mais bela cerejeira em flor, no outro és a raiz mais negra e profunda que existe em mim. No entanto não deixas de cá estar e a beber da mesma fonte que eu. A fonte que se chama Loucura. A loucura de querer sempre mais e melhor mesmo cometendo os mesmos erros com base em crenças que não existem.

domingo, 30 de novembro de 2014

(...)

Hoje Aprendi. Aprendi de uma forma calma e com sentimento de paz. Energia tal que envolveu uma sala repleta de turbilhões de sentimentos. Confirmei que o amor ainda é vivido de uma forma natural, fiel, íntima e apaixonante. Que até na falta de um ente próximo o amor supera a saudade e o sentimento de perda. O papel de pai tem um marco tão condutor para o sentido da vida, como os regatos e rios têm com a água. Marcos simples, fluídos, com obstáculos à mistura mas sempre com um propósito. Final esse que pode ser de união ou discórdia. Contudo os mais altos valores morais e éticos levam sempre a uma união de amor vivido em fratria. A humildade, receptividade, honestidade, abertura e solidariedade são agora palavras de ordem para com o próximo. Partiu da sua bondade ensinar os outros, esses recolheram e partilham agora num ciclo harmonioso sem fim. O mundo mudou à 95 anos e hoje volta a mudar outra vez.